Centro de Referência da Saúde da Mulher recebe nome de homem e gera polêmica em Bragança

Os vereadores da Câmara Municipal de Bragança Paulista aprovaram, por unanimidade, o projeto de lei 44/2020, de autoria do Executivo que oficializa o Centro de Referência da Saúde da Mulher, em construção na Vila Batista, como Cermulher Dr. Waldemar Muniz.

A denominação foi apreciada em  turno único na 38ª Sessão Ordinária do ano, realizada na terça-feira, 20 e gerou polêmica em Bragança Paulista.

Afinal um Centro de Referência da Saúde da Mulher deveria receber o nome de um homem ou de uma mulher?

Formado em medicina pela Escola Paulista de Medicina, o homenageado, faleceu em maio deste ano. Ele atuou em Bragança Paulista como professor na USF (Universidade São Francisco), coordenou a unidade regional do Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social), implantou o serviço de planejamento familiar no município e presidiu a APM (Associação Paulista de Medicina) de Bragança Paulista).

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Na discussão da matéria, o vereador Paulo Mário, líder do governo na Casa, destacou a atuação do médico na cidade. “Dr. Waldemar foi um ginecologista que cuidou da saúde da mulher por muitos anos. Por isso, a Administração propôs a denominação do Centro de Referência da Saúde da Mulher, como forma de homenageá-lo”, justificou.

Para a presidente da Câmara Municipal Beth Chedid, a contribuição do indicado durante o exercício da medicina é incontestável. “Todos reconhecem a importância do trabalho do Dr. Waldemar na comunidade médica. A proposição é uma justa homenagem e manifesta respeito à família”, destacou Beth.

Já o vereador Quique Brown mencionou a nota de repúdio enviada a Casa pelo Grupo Batuque  Raízes da Nega. “Quero destacar que sempre votei favorável a qualquer homenagem pautada na Casa. Fui contrário em uma única ocasião. Votarei favorável ao PL que homenageia o Dr. Waldemar, pois reconheço todo seu legado, mas faço um alerta para que a Administração tenha mais cuidado e se atente que as mulheres precisam ter mais voz. O coletivo Batuque da Nega fez um levantamento dos equipamentos públicos de saúde que receberam denominação e a maioria leva nome masculino, mas para um espaço voltado exclusivamente para a saúde da mulher, entendo que o Executivo deveria ter um pouco mais de cuidado, para que as mulheres não sejam apagadas da história e não tenham o devido reconhecimento”, afirmou.

Outros vereadores, como Moufid Doher também se manifestaram sobre o assunto alegando que a colocação do grupo chegou em cima da hora, mas que  o debate sobre denominação de bens públicos merece atenção.

Basilio Zecchini, propôs o adiamento da votação da matéria para que o assunto fosse debatido com a população. “No meu o entendimento o maior erro é discutir a denominação de um espaço público que não está terminado. Disseram que o grupo perdeu o tempo de se manifestar, mas o centro de saúde ainda está em fase de obras, portanto ninguém esperava que a indicação fosse feita neste momento, portanto sugiro que a votação seja adiada”, comentou.

Ele no entanto, foi voto vencido.

Na nota de repúdio enviada à Câmara Municipal o grupo ressalta que as mulheres são 50% da população mas ainda assim muitas vezes, as mulheres não são enxergadas nas ruas.

Na nota, o grupo deixa claro que respeita e “muito a memória do Sr. Waldemar Muniz e de seus familiares e contra estes, nada temos. Por certo, o médico falecido exerceu sua profissão com afinco e maestria”.

Ressaltam, no entanto, que “mesmo reconhecendo e respeitando sua trajetória, não podemos, JAMAIS, aceitar que um Centro de Referência da Saúde da MULHER, (repita-se: DA MULHER!), receba denominação masculina, ou seja, em homenagem a um homem”.

O grupo entende que o futuro Centro de Referência da Saúde da Mulher, “deve ser um equipamento público de saúde que represente, acolha e cuide do conjunto das mulheres, devendo, por isso e em sua inteireza, ser um espaço dedicado exclusivamente a este público, não havendo nenhuma razão lógica para receber, em sua denominação, um nome masculino, seja este qual for”.

Acrescenta ainda que “o nome do equipamento faz parte dele próprio e deve fazer jus a sua função, não a contradizer”.

As mulheres do Grupo Raízes de Nega ainda questiona: “Por acaso não temos, na História da sociedade bragantina, mulheres que
dedicaram suas vidas a cuidar da saúde de outras mulheres? Não tivemos parteiras, médicas, benzedeiras, enfermeiras, técnicas de raio-x, psicólogas, assistentes sociais, gestoras, funcionárias de carreira, fisioterapeutas, profissionais da limpeza, cozinha, recepção e administração, voluntárias, etc, cujo trabalho é notável na prestação de serviços de saúde?”.

O grupo ainda acrescenta que o “patriarcado, enquanto sistema totalizante e estruturante que subordina o conjunto das mulheres aos homens, estabelece uma lógica em que o trabalho e o protagonismo das mulheres é apagado e invisibilizado na História”.

Na nota, ressaltam ainda que “não à toa que a maior parte dos prédios e espaços públicos são denominados com nomes masculinos em homenagem aos homens, o que gera uma falsa percepção de que apenas estes construíram e colaboraram com o mundo em que vivemos.
Assim, as mulheres são apagadas da História e sub-representadas, o que permanecerá e se perpetuará se algo não for feito no sentido de reconhecer o papel histórico e cultural das mulheres”.

Acrescentam também que em Bragança Paulista “este apagamento e silenciamento é gritante, pois a esmagadora maioria das ruas, praças, escolas, espaços culturais, hospitais, postos de saúde, receberam nomes masculinos”.

Alerta ainda que das 45 unidades de saúde 32 foram nomeados e 25 receberam denominação masculina em face de apenas 7 (sete), com congratulações femininas e cita diversas mulheres que poderiam ser homenageadas com a denominação pelos trabalhos em prol das mulheres como por exemplo, Izilda Toledo, Tânia Clemente,  Elizabeth Marghatto Ramos, Benedita Pereira da Silva; Cecília Chiaron, Sra. Vicentina, Alzira Quillici, entre muitas outras.

“Em pleno ano de 2020, não é mais tolerável a ação de autoridades públicas, em sua maioria homens, brancos e heterossexuais, que, de seus lugares de privilégio, reforcem as desigualdades de gênero, em contrariedade ao disposto na Constituição Federal, a qual, como sabido, igualou homens e mulheres em direitos e deveres”, acrescentam.

Confira a nota completa clicando aqui: NOTA DE REPÚDIO CENTRO DA MULHER 

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