Por Ana Maria de Oliveira

Há algum tempo, publiquei em meu perfil pessoal no facebook, uma foto de ponta cabeça. E é assim, que ela seguirá. É assim que hoje sinto que infelizmente o mundo está. Os valores, para boa parte das pessoas, está invertido. O ter vale imensamente mais do que o ser.

Estar ao lado de alguém, por exemplo, não significa estar perto. Aliás, às vezes, a gente está tão perto de alguém, mas pouco sabe o que esta pessoa sente.

Fiquei simplesmente estarrecida com o massacre de Suzano. Doeu na alma. Fiquei chocada com o fato em si e claro, com a cobertura jornalística e com a não jornalística também.

Em que mundo estamos vivendo?

Esta é uma pergunta que não sai da minha cabeça. E vem sempre acompanhada de outra: onde vamos parar?

Diante de tudo que vi, nas emissoras de TV e que recebi rapidamente pelo WhatsApp,  me perguntei como pode alguém diante daquela tragédia, enquanto corria, ter coragem de pegar o celular e filmar ?

Como pode, alguém ver aquelas cenas chocantes e ter coragem de fotografar os alunos ali, caídos, mortos e espalhar pela internet?  O crime mal tinha ocorrido e já estavam nas redes sociais todas as imagens possíveis. E o espetáculo do crime estava armado.

Para quem se lembra do jornal Notícias Populares, o que vemos hoje pelas redes sociais e parte da mídia é fichinha.  Será que vale tudo por curtidas, compartilhamentos audiências? Qual o limite?

Onde erramos?

No dia a dia, vejo muita gente culpando a imprensa pelas coberturas que faz e por muitos problemas do mundo. O jornalista é acusado de distorcer, de condenar, de mentir.  Mas a culpa do caos que vivemos no mundo não é só da imprensa e do jornalista.

Assim como a culpa também não é só dos políticos, nem dos corruptos, nem dos que usam discursos de mudança e na verdade nada de novo fazem.  A imprensa, os políticos, a polícia, não importa o segmento, todos são compostos de seres humanos.

Seres, que a cada dia deixam de lado o amor. Acho que é justamente ai que erramos !

O amor parece um sentimento banal.  O ódio, a raiva, a vontade de criticar e julgar o outro, parece que se enraizou de tal forma, que se você discordar de alguém porque acha macarrão melhor que arroz e feijão é capaz de ter briga.

Onde há amor e ética, o jornalista não repassaria para frente imagens das crianças correndo entre os corpos do colega.  Onde há amor, aliás, ninguém em sã consciência gravaria aquelas imagens. Tentaria de duas umas: fugir ou salvar um colega.

Mas não. A vida parece ser uma grande live,  um espetáculo em busca de curtidas e compartilhamentos. 

Sinceramente, eu senti nojo de algumas coberturas sobre o crime em Suzano.

Nojo dos que compartilharam as fotos no WhatsApp. Têm gente que ainda justifica o compartilhamento falando: briga com quem filmou. É como se compartilhar algo tão chocante fosse natural.

Aliás, para tudo se tem um culpado na ponta da língua: o culpado não é quem distribui. O culpado é quem filmou. O culpado parece ser sempre os outros. Mas não é bem assim.

Os culpados do massacre de Suzano não são só os jovens de 17 e 25 anos. São seus pais ! Somos nós todos, que estamos muito mais preocupados com a realidade virtual do que com o outro.

A gente sabe o que o Neymar está fazendo agora, que roupa ele usa, quanto ele ganha, mas não sabe o que nossos filhos acessam nas redes sociais. Que jogos ele gosta?  Com quem ele conversa on line?

Aliás, o que seu filho está fazendo agora? (Pois é enquanto escrevo, o meu vê TV e eu já fui lá proibir um desenho.). Os jogos de tiro? Eu já apaguei do celular !

Quem são os amigos dos seus filhos? Qual os problemas que os afligem?

A gente muita vezes, não sabe nem o problema que tem quem vive no meto teto que a gente. Fica cada um no seu quarto. Cada um no seu mundo virtual.

A gente sabe todos os passos do Bolsonaro, acha que entende tudo de política, de direita e esquerda, mas não é capaz de ligar para um amigo que está doente e oferecer ajuda. Aliás, amigos, quantos reais a gente realmente tem?

Eu, que hoje posso dizer com orgulho, que vivo, do meu negócio apenas virtual, tenho cada dia mais medo do que estamos nos transformando na internet.

É hora de aprender a usar a internet com responsabilidade. E isto significa ensinar jovens e crianças que há vida fora dela. E que viver significa amar. Amar a família, os amigos, as oportunidades que a vida nós dá.

Tenho medo do futuro que estou deixando para meu filho. Medo. Muito medo. Um medo, que ontem me fez ficar prostrada na frente da TV, chocada com o que via.

Viver não é um jogo de videogame ou computador. Não é saindo atirando por ai que vamos resolver os problemas do mundo.

Diálogo, tolerância. Será possível, pelo menos a gente tentar exercitar isto um pouco?

Neste mundo de ponta cabeça, o que me resta é uma única certeza: o mundo precisa de amor. Onde há amor nada de ruim entra ou sobrevive.

Não podemos ficar de braços cruzados esperando outros crimes como este. A culpa não é só dos assassinos. É de todos nós. A luta, também deve ser.